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20 de janeiro de 2012

Coluna da Camilla - Mustang Sally


Teu corpo rígido e forte em cada milímetro… E essa tua respiração, notável aos peitos leves sob a blusa, tua pele transparente de segurança como um pó, que se assoprar sente, e continua impregnado a proteger seu forte como um leão magro e destemido que, por seu louvor de rei, ainda continua em pé. Teus olhos traem até a parte de ar que tocam e que, se fecha, tua boca geme e se contrai.

Não é a minha boca que te toca, mas já foste. Já foi o meu prazer que preenchia o corpo belo e linear abrangente da tua mente de malícia e manobra. Já foste minhas mãos que contornaram tuas revoltas, já foram essas mãos que te calaram os discursos inúteis ao acordar, já foste minhas mãos que te puxaram do chão quando caíste embriagada e filosófica ao leito do amanhecer na porta do bar.

Ver-te escorada a um poste de madeira, cantando, em algumas doses de álcool, a tua música, teu rock, lembro-me do teu cambalear me querendo impressionar enrolada aos lençóis da minha cama: se mexia vagarosamente cantando e me tocando. E dançava… Oscilando entre entregar-se e em outro segundo, voar singularmente à outro mundo, sozinha, mundo da tua música. Gostava de te ver deitar nua e sozinha e observar quando teus olhos perdidos fitavam o teto, provavelmente bolando uma das teorias sobre bares e quedas das estrelas.

Ver-te fútil ao olhar de outros marma
njos que passavam mãos desconhecidas sob tuas curvas não me cabia, eles não sabiam nada de ti, provavelmente te mandariam calar a boca quando ouvissem tuas histórias e tu não te importarias, gemeria mais alto. Perdendo em cada momento com eles um pouco da tua alegria, e no momento em que estivesse da excitação cega, toda tua essência viraria branco, o mesmo branco da tua pele. E desse branco, que oscila do azul dos teus olhos ao preto do cabelo, num instante de três centímetros de suor e pele, de dentes e língua, tu seria outra mulher: mais fria, mais puta, mais madura e cicatrizada.

5 de janeiro de 2012

Coluna da Camilla - Elisha Flowers


Era sempre assim. De bar em bar arrecadava junto com as cenas, cicatrizes. Não escrevia nenhuma delas, era como se os meus sentidos capturassem em cada roçar de corpos, um cheiro. Ou uma textura, ou um grito. Ou, seqüestrava um gemido, um hálito.

Um gole de conhaque a mais, um aqui ou outro alí. O escuro do céu sempre reluz com o contraste neon empoeirado das letras de boteco. Existiam estrelas e um certo tipo de brisa que a noite faz misturar com as luzes amareladas dos postes, lá fora. Mas eu, tonto de vibração, preferia ficar ali: as coisas eram fáceis, sempre, até as difíceis.

E aí? Aí que houve um dia. Não faz-me diferença em que folha do calendário, mas houve esse dia.

Te vi passar por mim às mesmas sombras da madrugada. Ao canto da visão te vi, em seguida meus olhos voltaram a se fechar e meu corpo resistir às ondas sonoras de ‘november rain’. Um rapaz cantava alto e os sons eram rudes e agressivos.. Cada nota me enchia de prazer. Assim como ter te visto. E eu nem sabia disso ainda.

Não sei o que foi de você que me fez te procurar. Tua presença feria minha indiferença de um jeito leve e provocante. Não sabia naquele momento o quão seria fácil chegar a ti. Tu tinhas um jeito louco que eu queria tocar, e envolto da sonoridade da nossa volta, algo lhe fazia ceder.. Junto com os pausados goles, entregava-se devagar.

Te vi observar o lugar de onde vinha a música, e foi naquele ultimo gole de whisky que tua boca perto do meu ouvido destrancou a minha fera: “Quero tudo, na mesma intensidade daquela guitarra."

Num lapso de tempo, te enchi de desejos e esperava à cada pedido oblíquo pra satisfazê-los. Não tinha ideia da hora em que estávamos ou de quanto a tua respiração me faria enlouquecer. Me incendiava com os dentes e não importava o bafo de álcool, era como acariciar uma flor que ainda merecera o carinho.

Da rosa, me deixava sentir seus espinhos entrando na carne e deixando ali, escrito na minha pele: rasguei-o. Quando ser Rosa não bastava, gostava de tapar tua boca por alguns instantes e te observar virar a minha planta carnívora de estimação. Foram alguns dias, em que provei teu doce amargo, que agora nem de longe mais vi.

Sobre esses dias só me recordo de ti, e não teu nome.. Mas poderia ser Elisha. Doce, carnívora, esquecida e relembrada Elisha.


(Camilla Buligon, estudante)

#NP - The Killers - When You Where Young

22 de dezembro de 2011

Coluna da Camilla - Easy come, Easy go


Houve dois momentos em que você, sendo minha corda, teve suas funções: num primeiro a de me elevar, e em outro a forma legítima da forca. Com os pés no chão, te segurei nas mãos entre o pescoço e o peito. No pescoço você era meu brinquedo, e no peito eu era o seu. Entre as formas que se faz um holograma qualquer, há a de parecer real e a de desaparecer sem deixar rastros ou marcas.

Ambiguidade também nas mais loucas alucinações, pois há sempre os que a esquecem. Deveriam existir os mesmos dois caminhos nos objetivos: mas eu só te dei um. Eis que a segunda função também cabe a mim: na estrada com o meu destino você ocupou a posição da placa de alerta que não serve pra nada além de, pela cor vermelha, usufruir da minha atenção por pouco menos de dois segundos.

Can you see the two “easies” in ‘Easy come, easy go’?


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