10 de julho de 2013

Toda a safadeza de Georges Pichard

pichard001

Nascido em Paris no ano de 1920, esse senhor francês de humor cáustico ofendeu, nas décadas de 60 a 80 do século passado, muitos cavalheiros e damas defensoras da boa moral e dos bons costumes em seu país.

Mas a verdade é que bom gosto moral não é irmão siamês do bom gosto estético. Aplicada a Pichard, essa verdade fez com que seus detratores, mesmo quando o acusavam, para os padrões da época, de demasiadamente obsceno, fossem obrigados a  reconhecer que seu trabalho sempre foi tecnicamente magistral, ainda quando moralmente ofensivo.
 
pichard0241

Egresso da  École des Arts Appliques, após a Segunda Grande Guerra iniciou sua carreira com trabalhos publicitários. Em 1956, entrou para o mundo dos quadrinhos com trabalhos que já anteviam a sua temática predileta: o erotismo sem sutilezas e o prazer de ofender a Igreja.

Em 1967, enfrentou a primeira polêmica. Junto com Jacques Lob, criou Blanche Épiphanie, uma loira de 17 anos que defendia sua convicta virgindade contra o ataque de vilões (o pior deles, um banqueiro  escroto) capazes dos mais ardilosos estratagemas para deflorá-la. Felizmente, sempre no último momento, surgia um misterioso herói mascarado para salvar nossa jovem, pura e virginal protagonista. A personagem estreou na V-Magazine, de propriedade de Jean-Claude Forest, ninguém menos que o criador de outra loira: a psicodélica Barbarella. Mas isso é, literalmente, outra história.

 pichard003
Muito menos comportada foi a segunda personagem criada por Georges Pichard, dessa vez ao lado de Georges Wolinski. Em 1971, a dupla criativa apresentou ao público Paulette, uma loira com seios firmes e de moral frouxa. Diferente de sua antecessora, essa nova protagonista não estava assim tão convicta das vantagens de uma vida casta.

Paulette surgiu na edição de número 12 da revista de humor Charlie Mensuel. Em suas aventuras, a moça vive de tudo um pouco: é sequestrada, forçada a viver no harém de um Sultão, tem um caso com Ali Babá, herda uma fortuna, vira comunista, insufla uma greve em um bordel (imagem acima), vai para o Vietnã, batalha contra o capitalismo e outras tantas estripulias pelas quais os autores alfinetam, a um só tempo, os religiosos, os conservadores, os machistas, as feministas, a esquerda e a direita.

 pichard008B

O que observamos na evolução do trabalho de Georges Pichard é que, ao longo dos anos, ele passou a aproximar-se gradualmente de um tema perigoso: as relações de domínio no âmbito da sexualidade. Em suas obras, a tônica sempre foi a do exercício do poder nas relações sexuais.

Em Animal Agonizante, Philip Roth demonstra que, para além de nossas pretensões civilizatórias, o desequilíbrio e a relação de domínio daí decorrente não podem ser afastadas da sexualidade, pois é necessário atrito para alimentar as chamas do instinto. Toda relação de domínio tem um componente sexual ou toda relação sexual possui um componente de domínio, ainda que sutil?

Não importa.

O que Georges Pichard deixou claro em suas obras é que o domínio sexual não se restringe à relação homem/mulher.

Para conhecer melhor a obra de Georges Pichard clique aqui.
(Continue por sua conta e risco, evite o acesso se contar com menos de 18 anos de idade e não prossiga caso esteja em ambiente de trabalho)

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...