5 de junho de 2013

Fiel



Foi colocar o primeiro pé no lado de dentro da casa e o grito surgiu:

-Isso são horas?!

Alberto apertou os olhos e a boca como que se dissesse 'fudeu!'. Estava com a cabeça tão nas nuvens que havia se esquecido de bolar alguma desculpa. Fechou a porta delicadamente e virou-se para a Marta.

-Martinha, meu amor, me perdoe.

Não era preciso ser nenhum gênio para sacar que ela dificilmente perdoaria sem uma explicação plausível. Sua sobrancelha formava um V, tamanha fúria.

Alberto continuou:

-Martinha, eu estava... no... bar com o Paraíba e o pessoal do trabalho.

-Beto, eu fui no teu trabalho e tu já não estava lá.

-É que... [gaguejadas e mais gaguejadas] ... que eu fui demitido!

O rosto de Marta vai mostrando uma certa morte interna. As sobrancelhas, antes em V, agora desabam. E então ela geme:

-Poderia ser uma amante, não? Porque não era uma amante?

Tirou de dentro da sua bolsa um punhado de remédios. Enfiou-os na boca. Antes de morrer disse:

-Prefiro morrer do que ter um marido desempregado.

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