4 de outubro de 2012

Como Ninguém dizia


Na sala de estar, já cansado de tudo e todos, Vinícius fixa os olhos nas imagens da televisão. Como se tivesse sido hipnotizado é difícil notar se está vivo. Não fossem raros piscar de olhos e um leve movimento de respiração, aposto, muitos lhe dariam por morto.

Aquele momento foi quebrado pelo grunhir estridente da campainha. Levou um susto. Levantou-se e ao abrir a porta fora mais uma vez surpreendido. Era Ninguém.

Vinícius educadamente deixou Ninguém entrar e sentar-se na sua poltrona. E Ninguém esparramou-se, tomou conta do ambiente e começou a divagar sobre o que lhe trazia ali.

Problemas com a solidão o afligiam. Vinícius escutava atentamente e completava o final das frases da sua visita com 'sim, sim... prossiga'.

Horas e horas de desabafo. Garrafas e garrafas de vinho. Os dois pegam no sono.

Vinícius acorda de cara amarrotada, olhos inchados e mente levemente embriagada. Procura por toda casa, mas Ninguém foi embora. Na mesa da cozinha um recado escrito a mão, com letras trêmulas, dizia:

"Se você não escutar Ninguém nunca será alguém."

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